ONDAS – Observatório dos Direitos à Água e ao Saneamento

ONDAS - Observatório Nacional dos Direitos à Água e ao Saneamento

Além das enchentes: obra de piscinão causa transtornos para moradores e comerciantes no Capão Redondo

CASAS VIZINHAS TÊM SOFRIDO COM RACHADURAS E ESTILHAÇOS DE EXPLOSÕES CAUSADAS NA OBRA LOCALIZADA NA AVENIDA ELLIS MAAS. ENCHENTES NA REGIÃO TAMBÉM FORAM INTENSIFICADAS.

Autora: Ana Alice de Lima

Publicado originalmente no site Desenrola e Não Enrola em 9/6/2026

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Os moradores do condomínio Parque das Árvores, situado na Avenida Ellis Maas, no Capão Redondo, distrito de mesmo nome, na zona sul de São Paulo, têm se preocupado com a situação das obras na avenida ao lado de suas casas. A construção que teve início no ano de 2022 tem a missão de criar um piscinão para ajudar no escoamento das águas da chuva na região.

O prazo de finalização da obra estava previsto para terminar em três anos, conforme cronograma inicial da prefeitura. Porém, o processo teve dificuldades no momento da escavação. Segundo a Subprefeitura do Campo Limpo, foram encontradas rochas no fundo do que seria a estrutura.

Inicialmente a Subprefeitura alega que está realizando o desmonte dessas rochas sem o uso de explosivos para não impactar as regiões vizinhas. Porém, Silvana Ribeiro, síndica e moradora do condomínio Parque das Árvores, relata que a situação não ocorre dessa maneira. Além do barulho das explosões, a síndica reclama dos estilhaços que atingem as residências. “Já faz um bom tempo que os estilhaços começaram a atingir o condomínio e, desde que uma pessoa foi atingida na avenida, eles passaram a interditar”, conta.

A síndica diz que após um dos estilhaços quase ter atingido uma das moradoras do condomínio no mês de maio, ela entrou em contato com o representante da Secretaria Municipal de Infraestrutura e Obras – SIURB, Marcos Monteiro. “Eu falei direto com o secretário, e ele esteve aqui no piscinão logo em seguida. Ele ficou de criar um grupo no WhatsApp para quando houver as explosões eu ser avisada quinze minutos antes, e também acionarem uma sirene. Nessas últimas explosões não houveram o acionamento da sirene, pelo menos eu não escutei”, relata.

Silvana reclama dos danos que a obra traz para os moradores do condomínio, como o excesso de poeira nas casas e lembra que em 2022, quando a obra teve seu início, não foi realizado o laudo cautelar da vizinhança, documento técnico recomendado para prever os impactos da construção.

A síndica explica que apenas no final daquele ano, após a mobilização dos moradores, e depois de conversas com a SIURB, foi feita uma vistoria cautelar. Ela também afirma que os operários que trabalham na obra não utilizam equipamento de proteção. “Se está ruim pra mim, imagina pra eles que estão ali”, diz.

As casas do condomínio, que existem desde 1992, apresentam rachaduras da fachada até a parte da lavanderia. Dona Lia, aposentada, é uma das moradoras que sofre com as rachaduras. Ao entrar em sua casa é possível perceber as marcas na sala até o fundo da casa, que formam um vão entre sua residência e a do vizinho.

Ainda nos fundos da casa de Dona Lia, há um desnível no piso do chão da cozinha quando comparado ao piso da área de serviço. Ela explica que seu encanamento já estourou e o piso da casa está cedendo, por isso um conhecido refez as tubulações de água e trocou os azulejos a senhora alega que gastou entre 20 a 25 mil reais na obra.
Por quê construir um piscinão?

Segundo o engenheiro civil, membro do Observatório Nacional dos Direitos à Água e ao Saneamento (ONDAS), Ricardo Moretti, um piscinão é construído quando a cidade se expande sem respeitar adequadamente os ritmos da natureza. Ele ressalta a importância das áreas de várzea que cumprem mais ou menos o mesmo papel do piscinão.

“Quando o rio fica cheio e transborda, a calha maior do rio enche espaços que ficam no entorno desse rio, com o tempo, devagarinho essas lagoas vão retornando ao leito, como se fosse uma esponja”, diz o engenheiro.

“Quando eu impermeabilizo tudo, inclusive as várzeas, eu perco essa capacidade da água se espalhar e descer devagarinho para baixo. Com isso começam a acontecer grandes processos de enxurradas, alagamentos, inundações, etc.” – Ricardo Moretti, engenheiro civil membro do Observatório Nacional dos Direitos à Água e ao Saneamento (ONDAS)

Ricardo diz que, em regiões periféricas, o piscinão é afetado pela falta de saneamento e de varrição de ruas nessas áreas, serviços que deveriam ser promovidos pela prefeitura da cidade. “Um piscinão enche e depois ele esvazia devagar, se ele enche de esgoto e lixo, quando esvazia o que fica no fundo é o esgoto”, descreve ao alertar que se o reservatório não for limpo periodicamente, o remanescente de água pode apresentar riscos de doenças para a vizinhança.

“Começar uma obra e não terminar é o pior dos mundos”, diz o profissional quando se refere à construção na Avenida Ellis Maas. Ao analisar as imagens de satélite das obras do piscinão, o engenheiro civil explica que a terra presente na obra, quando chove, impede o escoamento na região, isso agrava as enchentes que ocorrem periodicamente na avenida.

As consequências da construção

Em janeiro de 2026, os moradores do condomínio Parque das Árvores passaram por mais um momento de dificuldade. A enchente que se limitava à Avenida Ellis Maas, onde se localiza o condomínio, ultrapassou os portões e começou a entrar no conjunto de casas.

“Era tragédia anunciada”, diz a síndica Silvana Ribeiro. A gestora do local diz que em novembro de 2025 já havia alertado para as modificações feitas pela obra do piscinão que se localiza há aproximadamente 17 metros do condomínio de casas. Naquele mês, a síndica cobriu completamente a porta da frente de sua casa com concreto para evitar que em uma possível enchente a água invadisse o local.

“Aqui tudo alagou, os vasos saíram boiando, a guarita. Nós perdemos a nossa mesa de interfone, foi um prejuízo de trinta mil [reais]. O porteiro ficou aqui dentro, ele não conseguiu sair, ele teve que subir em cima da bancada e o que deu pra salvar, salvou.” – Silvana Ribeiro, síndica e moradora do Condomínio Parque das Árvores

Em janeiro de 2026, Silvana também teve prejuízos. Ela explica que no dia da enchente, o seu carro, um Fiat Strada (modelo caminhonete) estava parado na frente de sua casa, ela e seu marido fizeram de tudo para tirar o veículo para evitar a perda, que foi parcial, mas quando chegou a vez do outro carro que estava na garagem da casa, não deu tempo. O veículo continua até hoje no mesmo local que estava há cinco meses.

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