Envolvimento entérico (intestinal) do coronavírus: é possível a transmissão fecal-oral da SARS-COV-2?

No final da página, leia nota do editor da seção Resenha, Amauri Pollachi – Conselho de Orientação do ONDAS


ENVOLVIMENTO ENTÉRICO (INTESTINAL) DO CORONAVÍRUS: É POSSÍVEL A TRANSMISSÃO FECAL-ORAL DA SARS-COV-2?

YEO, Charleen; KAUSHAI, Sanghvi; YEO, Danson. Enteric involvement of coronaviruses: is fecal-oral transmission of SARS-CoV-2 possible? The Lancet Journal. 19 de fevereiro de 2020, p.335-337. Disponível em: https://doi.org/10.1016/S2468-1253(20)30048-0 .

Este artigo recém-publicado apresenta os estudos de uma equipe do Departamento de Cirurgia Geral do Hospital Tan Tock Seng, em Singapura. O novo coronavírus, chamado Severe Acute Respiratory Syndrome Coronavirus 2 (SARS-CoV-2) foi identificado no final do ano de 2019, e mais amplamente divulgado após causar um surto de pneumonia viral em Wuhan, China, que ficou conhecida como COVID-19. Até fevereiro de 2020, o vírus havia se espalhado para mais de 26 países. Pelo relatório da Organização Mundial da Saúde publicado em 17 de fevereiro de 2020, mais de 71 mil casos haviam sido confirmados e, pelo menos 1770 mortes.

Este vírus pertence a uma família de vírus, entre eles o Severe Acute Respiratory Syndrome Coronavirus (SARS-CoV) e o Middle East Respiratory Syndrome Coronavirus (MERS-CoV), ambos conhecidos por causarem sintomas respiratórios e intestinais. O SARS-CoV-2 (causador da COVID-19) tem material genético 82% similar ao SARS-CoV.

Durante o surto de SARS-CoV, entre 2002 e 2003, até 73% dos pacientes tiveram diarreia enquanto estavam doentes, em geral durante a primeira semana da doença. O DNA do SARS-CoV só foi detectado nas fezes a partir do 5º dia da doença em diante. Os testes nas fezes infectadas tiveram pico de vírus no 11º dia da doença e continuou presente nas fezes de uma pequena parcela dos pacientes até o 30º. dia de doença.

Durante o surto de MERS-CoV em 2012, 25% dos pacientes reportaram sintomas gastrointestinais, como diarreia e dores abdominais junto com a febre, antes de manifestarem sintomas respiratórios. Estudos nos pacientes levaram a possibilidade de que infecções pulmonar e cerebral causadas pelo MERS-CoV seriam secundárias, ocorrendo após a infecção intestinal.

Nos relatórios atuais de Wuhan, de 2 a 10% dos pacientes infectados com o novo SARS-CoV-2 (pacientes com COVID-19) tiveram sintomas gastrointestinais – diarreia, dores abdominais e vômitos por um a dois dias, antes de febre e sintomas respiratórios.

Existem dados que apoiam a noção de que as transmissões do SARS-CoV e do MERS-CoV são viáveis pelo ambiente, o que facilita a transmissão oral-fecal. Na ocasião do surto de 2002, o DNA do SARS-CoV foi encontrado no esgoto de dois hospitais em Beijing e a cultura desta água em laboratório mostrou que o vírus continuou ativo por 14 dias em temperatura de 4ºC e por 2 dias em temperatura de 20ºC.

O SARS-CoV pode sobreviver por até 2 semanas após estar seco e continuar viável por até 5 dias nas seguintes condições: temperaturas entre 22ºC a 25ºC e umidade relativa do ar entre 40% e 50%, a partir daí passa a ter declínio gradual do potencial de infecção. SARS-CoV e MERS-CoV apresentam variações em seus potenciais de infecção, em diferentes situações de umidade relativa do ar e temperatura.

Sendo assim, a viabilidade e a presença prolongada do SARS-CoV e do MERS-CoV no ambiente sob diversas condições sugere o potencial de contaminação através do contato por coronavirus, de forma geral. Levanta-se a possibilidade do contágio dessa família de vírus por via fecal-oral, que pode ocorrer através de contaminação pelo esgoto.

O artigo destaca as sérias implicações desta descoberta pela transmissão fecal-oral, especialmente em áreas com deficiência nos sistemas de saneamento.

A família dos Coronavírus é sensível a antissépticos que contenham etanol e desinfetantes que contenham cloro ou alvejante. Por isso, enfatiza-se a necessidade de limpeza constante de assentos sanitários e lavagem das mãos.

Novas pesquisas devem ser feitas para descobrir as reais possibilidades de transmissão oral-fecal do novo vírus em ação, o SARS-Cov-2, causador da doença conhecida como COVID-19, e também se o vírus poderá ser detectado no intestino durante período de incubação ou de convalescência da COVID-19.

é possível a transmissão fecal-oralPor:  Estela Macedo Alves[1]

[1] Pesquisadora, pós-doutoranda no Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo (IEE USP). Arquiteta e urbanista, Doutora em Ciência pelo Programa de Pós-Graduação em Ciência Ambiental do IEE USP, SP. Contato: alvesestela@usp.br.

Nota do editor da seção Resenha, Amauri Pollachi:

Em face da emergência sanitária causada pela pandemia de COVID-19, excepcionalmente apresentamos duas breves resenhas de textos recém-publicados na revista científica The Lancet (Gastroenteroly & Hepatology) que trazem resultados de pesquisas que identificam a presença do novo Coronavírus (SARS-COV 2) em fezes e nos sistemas de esgotos.

São duas contribuições à discussão para imediata promoção do saneamento e da higiene para todos como instrumento primordial para o combate à transmissão de doenças virais, além daquelas de veiculação hídrica como gastroenterites, hepatite, verminoses, etc. (vide  o artigo “O brasileiro pula no esgoto, adoece e morre”.

À Estela Macedo Alves agradecemos a presteza em traduzir e resenhar ambos os textos.

LEIA TAMBÉM A RESENHA:
Presença prolongada de DNA viral SARS-COV-2 em amostras fecais

 

 

 

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