ONDAS – Observatório dos Direitos à Água e ao Saneamento

ONDAS - Observatório Nacional dos Direitos à Água e ao Saneamento

ONDAS na mídia: Amauri Pollachi critica privatização da Sabesp e aponta aumento de reclamações e piora nos serviços

O coordenador do Observatório Nacional dos Direitos à Água e ao Saneamento (ONDAS), Amauri Pollachi, fez duras críticas à privatização da Sabesp durante entrevista ao programa Alô, Brasil, da Rádio Nacional. Segundo ele, a deterioração dos serviços ocorreu de forma muito mais rápida do que especialistas previam e já provoca impactos diretos no abastecimento de água, na qualidade do atendimento e nas tarifas cobradas da população.

Pollachi afirmou que o modelo adotado em São Paulo repete experiências internacionais consideradas fracassadas.

“Esse processo de privatização no mundo afora tem sido revertido. Houve uma grande explosão de privatização no final dos anos 1980 e nos anos 1990, mas o fracasso fez com que muitas cidades e países voltassem atrás”, declarou.

Segundo ele, cidades europeias que privatizaram o saneamento enfrentaram aumento de tarifas, queda na qualidade dos serviços e redução de investimentos. O pesquisador citou o caso de Paris, que retomou o controle público do sistema de água após problemas enfrentados com a iniciativa privada.

Reclamações cresceram mais de 70%, diz estudo

Durante a entrevista, Pollachi comentou dados de um levantamento baseado em informações da Agência Reguladora de Serviços Públicos do Estado de São Paulo (Artesp), que apontam crescimento superior a 70% no número de reclamações contra a Sabesp após a privatização.

Para ele, a piora ocorreu em ritmo acelerado. “Nós esperávamos que essa deterioração acontecesse em quatro ou cinco anos. Mas, em menos de dois anos, conseguiram destruir o patrimônio imaterial que era a Sabesp”, afirmou.

O coordenador do ONDAS também destacou o aumento das queixas registradas no Procon-SP. Segundo ele, a companhia passou a liderar o ranking de reclamações no estado, superando até empresas tradicionalmente criticadas pelos consumidores, como a Enel.

Outro ponto levantado foi o aumento no tempo médio de resposta aos usuários. Segundo os dados citados na entrevista, o prazo teria saltado de cerca de cinco dias antes da privatização para mais de 70 dias atualmente.

Rodízios de água e piora na qualidade do abastecimento

Pollachi também criticou os frequentes episódios de falta d’água em cidades paulistas, inclusive em regiões que historicamente não enfrentavam esse problema.

Segundo ele, o governo estadual e a Sabesp passaram a adotar uma política de restrição no fornecimento de água para preservar reservatórios.

“O governo do estado instituiu que a água pode faltar, sim. Ao contrário, deveria garantir que a água não faltasse em hipótese nenhuma”, disse.

Ele afirmou ainda que moradores de periferias acabam sendo os mais prejudicados pelos cortes no abastecimento.

Além das interrupções, o coordenador do ONDAS relatou problemas relacionados à qualidade da água distribuída em cidades do interior paulista. De acordo com ele, a redução de custos teria levado à diminuição do uso de produtos químicos necessários para eliminar gosto e odor desagradáveis da água tratada.

“Para redução de custos, deixa de aplicar produtos que removem gosto e odor ruim. O foco principal passa a ser a redução de despesas e a maximização do lucro”, afirmou.

 Críticas à Equatorial e ao modelo de gestão

Durante a entrevista, Amauri Pollachi questionou a escolha da Equatorial Participações e Investimentos para assumir o controle da Sabesp. Segundo ele, a empresa não tinha experiência significativa no setor de saneamento antes da privatização.

“A Equatorial nunca foi uma empresa de saneamento. Quando assumiu a Sabesp, fazia menos de dois anos que atuava no saneamento do Amapá”, afirmou.

O coordenador do ONDAS também criticou o modelo de gestão baseado em metas de rentabilidade e distribuição de dividendos aos investidores.

Segundo ele, antes da privatização, grande parte do lucro da Sabesp era reinvestida na expansão dos serviços, inclusive em municípios menos rentáveis.

“A Sabesp fazia investimento mesmo onde não havia lucro. Hoje, o foco é maximizar os ganhos dos investidores privados”, disse.

Prefeituras e câmaras municipais reagem

A entrevista também abordou a reação de municípios paulistas diante do aumento das reclamações sobre abastecimento e saneamento.

Segundo Pollachi, cidades como Caraguatatuba, Hortolândia, Paulínia, Itanhaém e Santa Isabel já abriram investigações ou criaram comitês para acompanhar os problemas envolvendo a Sabesp privatizada.

Em alguns municípios, moradores relataram água com coloração alterada, cheiro forte e gosto desagradável.

O coordenador do ONDAS afirmou que a solução imediata passa pelo fortalecimento da fiscalização da agência reguladora e pela cobrança de medidas mais rigorosas por parte do governo estadual.

“A agência reguladora precisa fiscalizar fortemente o serviço. Hoje há uma fiscalização frouxa diante dos problemas apresentados pela empresa”, declarou.

Debate sobre privatização deve ganhar força

Pollachi também alertou para propostas de privatização de companhias estaduais de saneamento em outros estados brasileiros, como Minas Gerais e Pará.

Segundo ele, a experiência paulista deve servir de alerta para outras regiões do país.

“Eu queria que alguém apontasse um lugar no Brasil em que o serviço de saneamento privatizado nos últimos anos esteja melhor do que antes”, afirmou.

O coordenador do ONDAS defendeu que o abastecimento de água e o saneamento básico sejam tratados como serviços essenciais e não apenas como negócios voltados ao lucro.

“O acesso à água é um direito humano”, concluiu.

Assista aqui à entrevista completa.

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