ONDAS – Observatório dos Direitos à Água e ao Saneamento

ONDAS - Observatório Nacional dos Direitos à Água e ao Saneamento

Em São Paulo, as privatizações do governador Tarcísio de Freitas no centro da campanha eleitoral

O LÍDER DE EXTREMA-DIREITA MULTIPLICOU AS PRIVATIZAÇÕES DESDE 2023. OS EFEITOS DESTA POLÍTICA NA QUALIDADE DO SERVIÇO DA ÁGUA OU DOS TRANSPORTES SÃO CRITICADOS, MAS ELE É APONTADO COMO FAVORITO À REELEIÇÃO

Autora: Anne-Dominique Correa (Rio de Janeiro, correspondente)

Publicado a 28 de setembro de 2026 • Artigo traduzido do Le Monde


“Foi como se uma bomba tivesse caído em cima da gente!” No dia 11 de maio, por volta das 16 horas, uma forte explosão destruiu uma tubulação de gás durante obras no bairro. Duas pessoas morreram sob os escombros, lamenta o jovem de bigode, enquanto mostra uma dezena de edifícios abandonados. Perante o risco de desabamento, cerca de 160 dos seus vizinhos tiveram de ser realojados.

A tragédia no Jaraguá veio alimentar a indignação dos paulistanos contra a privatização da Sabesp, acusada de ter deteriorado a qualidade dos serviços da empresa. Em julho de 2024, o governador Tarcísio de Freitas, que concorre a um segundo mandato nas eleições de 4 de outubro, decidiu vender 30% do capital da Sabesp em troca de R$ 14,8 bilhões (2,51 bilhões de euros) para o Estado.

“O serviço da Sabesp degradou-se porque a empresa demitiu os trabalhadores mais experientes”, lamenta Amauri Pollachi, que trabalhou entre 1986 e 2017 na empresa — cujos quadros de pessoal caíram 22% entre 2023 e 2025 — e que dirige o Observatório Nacional dos Direitos à Água e ao Saneamento (ONDAS). Desde a alienação do capital da Sabesp, as reclamações relativas aos seus serviços quadruplicaram, de acordo com dados do Procon-SP, o organismo de defesa do consumidor do Estado de São Paulo.

“A estratégia de privatização é uma espécie de ponta de lança da administração Tarcísio [de Freitas]”, constata Marco Antonio Rocha, economista da Universidade de Campinas. Além da venda da Sabesp, o governador confiou, desde o início do seu mandato em janeiro de 2023, a gestão de loterias, de 143 escolas e de seis concessões rodoviárias ao setor privado, assim como quatro linhas de trens metropolitanos. Os seus antecessores já tinham concedido a exploração de cemitérios e parques, mas «o que mudou foi o ritmo e a dimensão das privatizaciones», prossegue o pesquisador.

Ritmo acelerado

“Não privatizamos só por privatizar. Fazemos por necessidade”, defendeu Tarcísio de Freitas — que tem 50% das intenções de voto (segundo uma sondagem do instituto Datafolha publicada a 24 de setembro) — no dia 9 de agosto, durante um debate televisivo no canal Band contra o seu adversário, Fernando Haddad, ex-ministro da Fazenda do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que obtém 30% das intenções de voto. Segundo o governador, as empresas envolvidas precisavam “atrair investimento” para melhorar a qualidade e expandir a cobertura dos seus serviços, emu ma momento em que os recursos orçamentais do Estado estão limitados. Num comunicado publicado em 27 de fevereiro, afirmava que a sua administração tinha conseguido atrair R$ 400 bilhões em capital privado.

Contudo, a população demora para constatar as melhorias prometidas. “O ritmo acelerado, a falta de empenho e de planeamento no processo de privatização causaram problemas operacionais que preocupam a opinião pública”, analisa Marco Antonio Rocha. Segundo uma sondagem do instituto Datafolha publicada de 16 de julho, mais de metade dos habitantes de São Paulo opõe-se à venda da Sabesp e das linhas de trens metropolitanos.

Na Praça da Sé, no coração da cidade, Rafaela Matos, uma jovem de 24 anos que utiliza diariamente os transportes públicos para ir para o trabalho num centro veterinário, considera que o serviço se deteriorou desde a concessão. “Há problemas todos os dias: ou o trem para, ou há gente demais e pessoas passando mal”, queixa-se. “Chego atrasada ao trabalho todos os dias.” De acordo com uma contagem da TV Globo, as falhas nas linhas privatizadas deram um salto de 56% entre o primeiro semestre de 2025 e o de 2026. Em 12 de setembro, um vagão chegou a incendiar-se na sequência de um curto-circuito na linha 12-Safira, uma das linhas concedidas, que serve a zona leste da megacidade.

“Vários serviços públicos deterioraram-se após o seu processo de privatização!”, declarou ao Le Monde Fernando Haddad, no sábado, 25 de setembro, antes de um jantar com empresários e o presidente Lula, organizado no hotel de luxo Tivoli Mofarrej, em São Paulo. O ex-ministro, candidato potencial à sucessão do presidente Lula no seio do Partido dos Trabalhadores, tenta capitalizar o descontentamento com as medidas do seu adversário para subir nas sondagens.

Em caso de vitória, promete renegociar os contratos celebrados por Tarcísio de Freitas para resolver os problemas apontados pela população. “Se as empresas recusarem, voltaremos atrás nas privatizações”, afirma, reconhecendo contudo que isso poderá ser “muito difícil” devido à insegurança jurídica que uma operação desse tipo poderia gerar. “Estes processos são lentos porque são frequentemente contestados na justiça”, acrescenta.

Grandes projetos desbloqueados

À véspera da eleição, a insatisfação gerada pelas privatizações parece não afetar a imagem de Tarcísio de Freitas, que tem probabilidades de vencer a eleição logo no primeiro turno. Na capital econômica do país, este ex-militar e engenheiro mantém uma boa imagem, sobretudo junto do mundo dos negócios. “Levou a cabo uma revolução em matéria de infraestruturas”, recorda Gesner Oliveira, economista que presidiu a Sabesp entre 2007 e 2011 e defendeu a privatização da empresa.

O governador não tem a alcunha de “Tarcisao do asfalto” por acaso. O seu governo construiu ou renovou cerca de 6 500 quilômetros de estradas e desbloqueou grandes projetos que estavam parados há décadas, como um trem de média velocidade destinado a ligar as cidades de São Paulo e Campinas, ou um túnel submerse ligando Santos a Guarujá, que permitirá descongestionar o acesso ao porto de Santos, o principal polo logístico do país.

A sua reputação de gestor poderá mesmo projetá-lo entre as principais figuras da direita para as eleições de 2030. Para aqueles que se assustaram com as excentricidades e os casos de corrupção que envolvem o clã Bolsonaro, o governador surge como “mais sério” e “técnico”. “Tarcísio é uma alternativa mais viável porque é menos extremista do que os Bolsonaro”, confidencia o proprietário de um grande matadouro do interior de São Paulo, convidado para o jantar no hotel de luxo, que preferiu manter o anonimato. “Acho que o Brasil precisa de tecnocratas”, diz, esperando ver o governador chegar um dia à chefia do Palácio do Planalto.

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