ONDAS – Observatório dos Direitos à Água e ao Saneamento

ONDAS - Observatório Nacional dos Direitos à Água e ao Saneamento

Famílias americanas pagam 62% a mais por água do que há dez anos. Prestadores privados cobram mais caro que públicos

Destaques –  3 a 9 de outubro de 2026

Emoji Famílias americanas pagam 62% a mais por água do que há dez anos. Prestadores privados cobram mais caro que públicos
2⃣ Envolvidos nas denúncias de corrupções pela Aegea são eleitos
3⃣ Consulta pública recebe contribuições para participação do Brasil na Conferência da Água da ONU
4⃣ Webinar: Saneamento no Brasil – Gestão Pública, Privatização e Financeirização
5⃣ Setor de saneamento busca mais resiliência diante de extremos climáticos
6⃣ Saneamento está longe das campanhas aos governos estaduais
7️⃣ Só sete Estados devem universalizar esgoto até 2033
8️⃣ Morador de Belém recebe conta de R$ 8,1 mil e relata falta de água frequente
9️⃣ Unicef alerta para riscos do El Niño para educação, alimentação e saúde de crianças brasileiras
? A nudez das licitações de concessão de saneamento
Momento difícil para o saneamento
Estiagem enfrentada na região Norte, resultante das mudanças climáticas, se agrava
Água e segurança hídrica: integração entre infraestrutura, gestão e proteção dos ecossistemas
Reino Unido: Surfers Against Sewage (SAS) denuncia no relatório anual que foram mais de 3 milhões de horas de lançamentos de esgoto bruto em águas superficiais

Emoji
 FAMÍLIAS AMERICANAS PAGAM 62% A MAIS POR ÁGUA DO QUE HÁ DEZ ANOS. PRESTADORES PRIVADOS COBRAM MAIS CARO QUE PÚBLICOS

Pesquisa divulgada pela organização americana Pesquisa da Food & Water Watch revela que as famílias dos Estados Unidos estão pagando, em média, 62% a mais por água potável do que há dez anos – um aumento superior à inflação, aos preços dos alimentos e à renda familiar, no período. Segundo a organização, a prestação dos serviços por empresas privadas, os cortes de recursos federais e os efeitos da crise climática estão entre os fatores que pressionam as tarifas de água.

A Food & Water Watch analisou dados de faturamento de 2025 dos 500 maiores sistemas de abastecimento de água dos EUA, que juntos atendem cerca de 155 milhões de pessoas, ou 45% da população do país. A análise comparou as tarifas atuais com dados de uma pesquisa semelhante realizada em 2015. O estudo não inclui as taxas de esgoto ou de águas pluviais, que geralmente são cobradas separadamente do serviço de água potável.

Mary Grant, diretora da Food & Water Watch, disse: “As contas de água estão aumentando muito mais rápido do que muitas famílias conseguem acompanhar, e esses custos crescentes da água afetam todos os cantos do país. As famílias de baixa renda são as mais atingidas.”

O estudo também constatou uma grande disparidade entre as tarifas de serviços de propriedade pública e os sistemas de água com fins lucrativos. As concessionárias privadas cobravam, em média, US$ 823 por ano de cada residência, em comparação com US$ 494 para os sistemas públicos – uma diferença de US$ 329, ou 67%. Os sistemas privados representavam apenas 11% dos 500 sistemas analisados ​​no estudo, mas correspondiam a 44% dos 25 sistemas mais caros. O estudo acrescentou que 70% dos 10 sistemas mais caros eram de empresas com fins lucrativos.

Leia aqui o relatório da Food & Water Watch  e suas repercussões na CBS News e no The Guardian.

2⃣
 ENVOLVIDOS NAS DENÚNCIAS DE CORRUPÇÕES PELA AEGEA SÃO ELEITOS

Julio Garcia foi eleito em Santa Catarina pelo PSD deputado federal com 114.391 votos e Reinaldo Azambuja, ex-governador do estado, foi eleito senador pelo PL do de Mato Grosso do Sul, com 903.554 votos

Ambos, segundo matéria de Graciliano Rocha e Eduardo Militão no UOL em 12/02/2026, estão entre os citados pelos delatores da Aegea como corrompidos pela empresa.

Os fatos delatados ao Ministério Público Federal em 2021 pelos ex-dirigentes da Aegea ocorreram a partir de 2012. Os acordos e delações premiadas entre a Aegea, seus executivos e o Ministério Público Federal só foi homologado pelo STJ em 2025, mas segue sob sigilo, obviamente favorecendo os envolvidos, corruptores e corruptos.

O ONDAS requereu o levantamento do sigilo mas não foi atendido pelo STJ, que justifica o sigilo para não prejudicar as investigações.

Leia a matéria do UOL sobre a eleição de 69 parlamentares investigados.

3⃣
CONSULTA PÚBLICA RECEBE CONTRIBUIÇÕES PARA PARTICIPAÇÃO DO BRASIL NA CONFERÊNCIA DA ÁGUA DA ONU

Está aberta, até 31 de outubro, a consulta pública “Brasil rumo à Conferência da ONU sobre a água”, destinada a reunir propostas, experiências e prioridades da sociedade para fortalecer a segurança hídrica, a governança da água e o saneamento no país.

As contribuições serão sistematizadas e utilizadas na elaboração de um Documento-Base que subsidiará a participação do Brasil na 3ª Conferência da Água da ONU, prevista para dezembro de 2026, em Abu Dhabi.

A Conferência tem entre seus objetivos acelerar o cumprimento do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 6 (ODS 6) — Água Potável e Saneamento e da Agenda 2030. Podem participar cidadãos, organizações da sociedade civil, movimentos sociais, comunidades, universidades, Comitês de Bacia, municípios, órgãos públicos e outros.

A consulta contempla temas como universalização do acesso à água e ao saneamento, conservação ambiental, mudanças climáticas, cooperação, governança e financiamento.

O ONDAS considera importante a participação das organizações, movimentos e pessoas comprometidas com a garantia da água e do saneamento como direitos humanos, contribuindo para que as experiências, demandas e propostas da sociedade estejam presentes na construção da posição brasileira para a Conferência.

Participe da consulta pública até 31 de outubro. As informações sobre prazo, finalidade e público participante estão na página oficial da consulta Brasil Participativo.

4⃣
WEBINAR: SANEAMENTO NO BRASIL – GESTÃO PÚBLICA, PRIVATIZAÇÃO E FINANCEIRIZAÇÃO

O ONDAS e a Plataforma de Acordos de Cooperação Público-Comunitária das Américas (PAPC) promovem, como parte das atividades do projeto “ECOS do ENDHAS” e em preparação para o III Encontro Horizontes de Gestão Pública e Comunitária da Água, que será realizado em fevereiro na Guatemala, o webinar “Saneamento no Brasil – Gestão Pública, Privatização e Financeirização”.

O evento contará com a participação do Prof. Léo Heller, ex-Relator Especial das Nações Unidas para os Direitos Humanos à Água Potável e ao Saneamento e referência internacional em políticas públicas de saneamento.

O webinar será realizado de forma virtual e tem como público-alvo associados(as) do ONDAS, representantes do movimento sindical, movimentos populares, estudantes, pesquisadores(as) e profissionais da área de saneamento.

Participe e contribua para este importante debate sobre os rumos do saneamento no Brasil.

Data: 15 de outubro de 2026 (quinta-feira)
Horário: 10h (horário de Brasília)

Plataforma: Via Zoom
Acesso: https://us02web.zoom.us/j/89899865056?pwd=Q0VYLpnq7J8p3vLsiIAhao11dR2CJX.1

5⃣
SETOR DE SANEAMENTO BUSCA MAIS RESILIÊNCIA DIANTE DE EXTREMOS CLIMÁTICOS

A matéria relaciona a infraestrutura de saneamento ao aumento da frequência e da intensidade de eventos climáticos extremos. Secas, chuvas intensas e alterações provocadas por fenômenos como o El Niño aumentam a pressão sobre os sistemas de abastecimento, tratamento e distribuição de água. Um dos problemas estruturais destacados é o elevado índice de perdas de água tratada no país.

A questão climática também evidencia uma limitação importante de políticas de saneamento baseadas predominantemente na lógica de expansão comercial da infraestrutura. Resiliência exige investimentos que nem sempre proporcionam retorno financeiro imediato — redundância dos sistemas, proteção de mananciais, redução de perdas, infraestrutura verde e capacidade para atender territórios vulneráveis. Por isso, contratos privados precisam incorporar claramente obrigações climáticas, sob fiscalização pública efetiva.

Leia a matéria.

6⃣
SANEAMENTO ESTÁ LONGE DAS CAMPANHAS AOS GOVERNOS ESTADUAIS

A reportagem parte do mesmo levantamento para mostrar o baixo espaço ocupado pelo saneamento nas eleições estaduais. O texto lembra que cerca de 33 milhões de brasileiros ainda não têm acesso à água tratada e 90 milhões não contam com coleta de esgoto, ao mesmo tempo em que o país se aproxima do prazo estabelecido para a universalização.

Essa ausência política ajuda a explicar por que o saneamento muitas vezes é tratado apenas como uma escolha de negócio — privatizar ou manter estatal — quando deveria ser discutido como política pública de saúde, desenvolvimento urbano, meio ambiente e redução das desigualdades. Sem metas concretas nos programas eleitorais, diminui também a capacidade futura da sociedade de cobrar compromissos dos governantes.

Leia no Correio Braziliense

7️⃣
SÓ SETE ESTADOS DEVEM UNIVERSALIZAR ESGOTO ATÉ 2033

Projeção da Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib) aponta que apenas sete das 27 Unidades Federativas brasileiras deverão atingir a universalização dos serviços de esgoto em 2033. Para o abastecimento de água, a perspectiva melhora, mas nem 60% dos Estados deverão alcançar a meta: apenas 15 deles devem atingir a meta de universalização até o ano limite preconizado na Lei 14.026/2020.

Segundo a ABDIB apenas dois Estados atingiram a universalização do esgoto até 2024 e no caso da água, nenhuma unidade federativa universalizou totalmente o serviço.

Atingir a meta de universalização dos serviços de água e esgoto até 2.033 foi o grande mote para acelerar o processo de privatização destes serviços públicos, caracterizado por intensa oligopolização (Equatorial, Aegea, BRK, Iguá e Águas do Brasil) e ampla financeirização. Aos trabalhadores sobraram as demissões e reduções dos salários enquanto as tarifas cobradas aos usuários subiram para financiar a transferência dos ativos dos serviços para as concessionárias privadas por meio de outorgas onerosas.

Para ler sobre a projeção da Abdib, clique aqui.

8️⃣
MORADOR DE BELÉM RECEBE CONTA DE R$ 8,1 MIL E RELATA FALTA DE ÁGUA FREQUENTE

Um morador de Belém, de 86 anos, recebeu uma conta de água de R$ 8.100,34, quase 165 vezes o valor da fatura anterior. Ao jornal O Liberal, ele também relatou enfrentar interrupções no abastecimento de três a quatro vezes por semana.

O caso acontece após a concessão dos serviços de água e esgoto à Águas do Pará, do grupo Aegea.

Saiba mais.

9️⃣
UNICEF ALERTA PARA RISCOS DO EL NIÑO PARA EDUCAÇÃO, ALIMENTAÇÃO E SAÚDE DE CRIANÇAS BRASILEIRAS

Mais de 30 milhões de meninas e meninos podem ser expostos a dois ou mais riscos climáticos no Brasil com o avanço do El Niño, apontado como um dos mais fortes desde 1950, afirma análise inédita do Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) divulgada nesta quinta-feira (8).

Preparado pelo Centro de Excelência sobre Crianças e Resiliência Climática do Unicef, sediado em Bangcoc, na Tailândia, o documento detalha como secas, calor extremo, incêndios florestais, chuvas intensas e inundações podem afetar saúde, nutrição, acesso à água, educação e proteção das crianças.

Saiba mais

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A NUDEZ DAS LICITAÇÕES DE CONCESSÃO DE SANEAMENTO

“Não é surpresa. Já mostrei nesta Folha como se transformam contratos de saneamento em maus negócios: alocando ao concessionário riscos sobre dados de partida que ele não controla. Licitar vira aposta. Como reequilibrar é difícil, operadores compensam descumprindo o contrato onde as agências não conseguem fiscalizar. Na origem, os padrões de alocação de risco das fábricas de projeto e a euforia do mercado pós-marco legal.

Os números confirmam. Nos grandes contratos licitados desde 2020, achei 39 pedidos de reequilíbrio, cerca de R$ 10 bilhões nos de valor conhecido. Reconheceu-se pouco mais de R$ 1 bilhão, quase tudo cautelar e hoje suspenso pela Justiça; o maior pleito, de R$ 5,9 bilhões, espera há quase três anos. Os maiores nascem de erro nos dados do edital: num contrato, a cobertura de esgoto informada para um município era 45%; a real, 2%. E a agência, segundo o Tribunal de Contas, nem sequer mediu a cobertura”.

Leia artigo de Mauricio Portugal Ribeiro


 MOMENTO DIFÍCIL PARA O SANEAMENTO

O setor de saneamento brasileiro enfrenta um momento de dificuldades, marcado pelas altas taxas de juros, pelo cenário eleitoral e pelo esgotamento do modelo de concessões adotado nos últimos anos. Segundo artigo de Yves Besse, os recentes leilões encerrados sem propostas demonstram que as empresas privadas estão menos dispostas a assumir contratos com outorgas elevadas, riscos excessivos e projeções econômico-financeiras pouco realistas. O autor critica a modelagem desenvolvida pelo BNDES, argumentando que muitos projetos já apresentam desequilíbrios desde sua concepção. Esses problemas podem resultar em pedidos de revisão contratual, aumentos tarifários, adiamento de investimentos e prejuízos à qualidade dos serviços prestados à população.

Besse também questiona a influência dos interesses políticos e financeiros na estruturação das concessões. Para ele, a busca por receitas imediatas com outorgas e a elevada participação dos custos financeiros comprometem a sustentabilidade dos contratos e desviam recursos que poderiam ser destinados à universalização. Embora defenda a continuidade da participação privada, o autor reconhece problemas estruturais no modelo atual e propõe sua reformulação. Sob uma perspectiva crítica à privatização, o artigo evidencia os riscos de subordinar um serviço público essencial à lógica da rentabilidade financeira, especialmente quando os custos dos desequilíbrios contratuais podem acabar transferidos à população por meio de tarifas mais altas e investimentos insuficientes.

Leia o artigo Momento difícil para o saneamento — Yves Besse


ESTIAGEM ENFRENTADA NA REGIÃO NORTE, RESULTANTE DAS MUDANÇAS CLIMÁTICAS, SE AGRAVA

Estiagem prolongada deixa comunidades sem água potável em Rondônia. Os poços amazônicos que abastecem 85 comunidades secaram, deixando 22 mil pessoas sem água.

A seca deixa 22 municípios do Amazonas em situação de emergência, aponta Defesa Civil. Outros 18 municípios do estado estão em alerta e 13 em situação de atenção, segundo boletim divulgado pelo Governo do Amazonas na quinta-feira (1/10).

Em Manaus, nuvem de fumaça provocada por incêndios volta a cobrir a cidade. No estado mais de 20 cidades tiveram piora na qualidade do ar. O sistema que monitora a qualidade do ar apontou uma concentração de partículas duas vezes acima do limite considerado péssimo.

Em Roraima, a Caer, companhia estadual de saneamento, anuncia novos poços e envio de carros-pipa para combater efeitos da seca. O nível do Rio Branco caiu para 80 centímetros em Boa Vista. No interior, poços perderam até 40% da capacidade e governo avalia suspender autorizações de queimadas.


ÁGUA E SEGURANÇA HÍDRICA: INTEGRAÇÃO ENTRE INFRAESTRUTURA, GESTÃO E PROTEÇÃO DOS ECOSSISTEMAS

Garantir água em quantidade e qualidade adequadas para o abastecimento humano, as atividades econômicas e a manutenção dos ecossistemas, com níveis aceitáveis de risco diante de secas e cheias. Esse é o princípio da segurança hídrica, tema que envolve não apenas a disponibilidade de água, mas também infraestrutura, saneamento, planejamento, governança e capacidade de adaptação aos eventos extremos.

Segundo o Conjuntura dos Recursos Hídricos no Brasil 2025 – Relatório Síntese, da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), a intensificação e a maior abrangência dos eventos hidrológicos extremos, associadas ao aumento da demanda e às pressões sobre a qualidade da água, reforçam a necessidade de preparação, planejamento e adoção de soluções inovadoras.

A segurança hídrica é analisada por meio de quatro dimensões: humana, econômica, ecossistêmica e de resiliência. Na dimensão humana, que avalia a garantia da oferta de água para o abastecimento, cerca de 22% dos municípios brasileiros apresentam níveis baixos ou mínimos no Índice de Segurança Hídrica (ISH), com maior concentração na Região Nordeste.

Para conhecer o informe da ANA, clique AQUI.


REINO UNIDO: SURFERS AGAINST SEWAGE (SAS) DENUNCIA NO RELATÓRIO ANUAL QUE FORAM MAIS DE 3 MILHÕES DE HORAS DE LANÇAMENTOS DE ESGOTO BRUTO EM ÁGUAS SUPERFICIAIS 

O Relatório de Qualidade da Água 2026 da ONG Surfistas contra o Esgoto expõe a dimensão da poluição por esgoto em todo o Reino Unido – inclusive em águas que deveriam ser balneáveis. Em 2025, mais de 500.000 despejos de esgoto foram realizados nas águas do Reino Unido, ao longo de mais de 3 milhões de horas. Entre janeiro e agosto de 2026, 1.687 pessoas relataram ter ficado doentes após usar a água contaminada, totalizando 1.923 dias de afastamento do trabalho.

O relatório reúne dados sobre lançamento de esgoto, poluição da água balneável e relatos de doenças para revelar o que está acontecendo nas águas britânicas – e onde ainda existem as maiores lacunas no monitoramento e na divulgação de informações.

Leia o relatório completo.

 

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