Autores: Marcos Helano Montenegro* , Amauri Pollachi** e Edson Aparecido da Silva ***
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O Observatório Nacional dos Direitos à Água e ao Saneamento (ONDAS) realizou uma investigação sobre a Sabesp após sua privatização em julho de 2024, em que identificou uma forte elevação dos lucros acompanhada de expressiva redução de custos operacionais da empresa, especialmente do custo de pessoal.
Como se deduz do quadro a seguir o lucro líquido médio anual da Sabesp no triênio 2021–2023, antes da privatização, foi de R$ 3,4 bilhões. No biênio 2024-2025, após a venda do controle acionário pelo estado de São Paulo, o lucro líquido médio anual saltou para R$ 9,2 bilhões, um crescimento de aproximadamente 2,7 vezes. Dito de outra maneira, o percentual do lucro líquido sobre a receita da venda de água e esgoto dobrou com a privatização, isto é, de cada R$ 10,00 pagos pelos usuários nas tarifas de água e esgoto, R$ 3,71 converteram-se em lucro dos acionistas.
Fonte: Relatórios financeiros publicados pela Sabesp. Valores atualizados pelo IPCA para 31/12/2025.
O valor adicionado mede o acréscimo de valor realizado pelo processo produtivo, isto é, o acréscimo de valor decorrente do trabalho humano. Com a privatização, a participação das despesas de pessoal no valor adicionado distribuído sofre uma forte redução. No triênio anterior à privatização, a participação média das despesas de pessoal no valor adicionado era de 25%, enquanto no biênio 2024–2025 essa participação caiu para 13,5%.
Portanto, não é discurso. Os dados mostram que a atual gestão da Sabesp priorizou esforços em maximizar a rentabilidade aos acionistas, sendo a redução das despesas com a força de trabalho própria um componente primordial para atender à prioridade do máximo lucro.
Em contrapartida, segundo informações prestadas pela companhia à Comissão de Valores Mobiliários (CVM), a remuneração média prevista para cada um dos seis diretores estatutários da empresa em 2025 era de aproximadamente R$ 708 mil por mês. Em 2024, a remuneração média mensal informada já não era baixa: R$ 97,5 mil. O aumento na remuneração da alta direção da companhia após a privatização foi de cerca de 626%, enquanto os trabalhadores tiveram reajuste de 5,53% em 2025 e 4,39% em 2026.
Paga com recursos arrecadados por meio das tarifas cobradas da população usuária dos serviços, essa escandalosa remuneração dos altos executivos da Sabesp privatizada está conectada com a prioridade dos acionistas em maximizar os lucros mediante redução da qualidade e da segurança dos serviços prestados aos usuários, inclusive pela compressão das despesas com a mão de obra especializada que sustentava a Sabesp.
A intensa e acelerada compressão dos custos de pessoal está intrinsecamente conectada com a massiva perda de pessoas capacitadas durante décadas de trabalho na Sabesp pública. Do quadro de 12.300 funcionários ao final de 2022, quase 5.800 foram demitidos, sem qualquer esforço de retenção ou transmissão de conhecimento.
O resultado trágico dessa política gananciosa e imediatista está evidente em muitos episódios. Em abril de 2025, o rompimento de um interceptor de esgoto causou uma cratera de grandes proporções na Marginal do Tietê e a solução da empresa foi despejar no Rio Tietê um volume de esgotos equivalente a 77 piscinas olímpicas por dia[1], interrompido somente após a grande repercussão do fato na mídia. A cratera só foi fechada um ano depois, em abril de 2026.
Em setembro de 2025, uma idosa de 79 anos morreu dentro de sua casa na cidade de Mauá, atingida por uma tubulação da empresa que desceu ladeira abaixo[2]. Em Mairiporã, um reservatório metálico de 2 milhões de litros colapsou totalmente provocando mais uma morte, vários feridos e dezenas de imóveis inundados.
Na região de Campinas, em Hortolândia, Paulínia e Monte Mor, as queixas de mau cheiro e gosto ruim na água distribuída foram respondidas de forma protocolar, não da maneira proativa antes praticada na Sabesp pública[3].
A falta d’água tornou-se permanente, sob um manto de “gestão de demanda noturna” que nada mais é do que a restrição da oferta de água para, artificialmente, reduzir perdas. É uma absoluta negação dos direitos humanos à água e ao esgotamento sanitário que afeta perversamente a população em situação de vulnerabilidade econômica e social.
Há um verdadeiro colapso do atendimento. Na agência reguladora estadual (Arsesp) a média mensal de reclamações contra a empresa na Grande São Paulo cresceu 70% na comparação dos primeiros trimestres de 2025 e 2026[4]. A Sabesp lidera com larga margem o ranking de reclamações do Procon-SP em 2025 com 6.879 registros e quase 70% das queixas não atendidas, uma situação inédita na sua história[5]. A falta d’água e os problemas nas faturas são as principais queixas.
A explosão de tubulação de gás no bairro do Jaguaré, na Capital, causada por obras da Sabesp, matou duas pessoas, feriu várias, destruiu 10 moradias e causou muita dor a quase duzentas pessoas que tiveram sonhos destruídos.
O governador de São Paulo declarou, após a explosão no Jaguaré, que o volume e a segurança das obras da Sabesp “está tirando o sono”. Ante essa frase, cabe perguntar: como está o sono de quem tem uma obra da Sabesp na porta de sua moradia ou de seu comércio?
Infelizmente, por uma equivocada privatização, a empresa criada para levar saúde e qualidade de vida para a população paulista está se tornando uma máquina altamente lucrativa, contudo mortal.
[1] Disponível em: https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/sp2/video/sabesp-faz-bombeamentos-para-o-rio-tiete-engenheiros-e-cetesb-dizem-que-e-esgoto-13716013.ghtml
[2] Disponível em: https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2025/09/18/cano-que-matou-idosa-dentro-de-casa-em-maua-se-soltou-por-excesso-de-peso-diz-sabesp.ghtml
[3] Disponível em: https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/noticia/2026/04/22/nao-da-para-confiar-moradores-reclamam-de-agua-com-cheiro-de-mofo-e-gosto-ruim-em-cidades-da-regiao-de-campinas.ghtml
[4] Disponível em: https://www.uol.com.br/flash/?c=5cf31a38cb8d67e21fec1cd99f16ea7720260508
[5] Disponível em: https://www.metropoles.com/sao-paulo/sabesp-queixas-procon-sp
*Marcos Helano Montenegro – Engenheiro, membro da coordenação do Ondas.
**Amauri Pollachi – Engenheiro, membro da coordenação do Ondas.
***Edson Aparecido da Silva – Sociólogo, secretário executivo do Ondas.
