Serviços de água e esgotos da Inglaterra: o último dos monopólios privatizados – por enquanto

Publicado originalmente pelo The Guardian em 9/7/21 (autor: Phillip Inman) – Traduzido para divulgação pelo ONDAS por Marcos Helano Montenegro
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Análise: retomar o controle dos prestadores de serviço beneficiaria os consumidores e, mais importante o meio ambiente.

Prestadores privados lançaram esgoto bruto nos rios e águas costeiras da Inglaterra mais de 400.000 vezes em 2020. Foto: Jim Holden/Alamy

Vender os prestadores estatais de água e esgoto britânicos parecia uma boa ideia para os ministros conservadores na década de 1980, quando tomaram conhecimento do valor da conta para atualizar um labirinto de esgotos vitorianos e um sistema de distribuição de água com muitos vazamentos.

Por que não deixar o setor privado injetar um pouco de energia e o dinheiro tão necessário em um projeto que uma gestão já exausta do setor público estava mal equipada para lidar, eles argumentaram.

Mas desde 1989, quando 10 prestadores regionais de água foram vendidos, houve afirmações e contestações sobre os benefícios que podem ser creditados aos novos proprietários do setor privado.

Para os detratores da indústria, um custo claro é a falha na atualização de um sistema de esgoto que extravasa regularmente em cursos d’água, poluindo rios e matando a vida selvagem.

A Southern Water se declarou culpada esta semana por permitir conscientemente que “matéria venenosa, nociva ou poluente e/ou matéria residuária e/ou efluente de esgoto”, ou esgoto bruto, chegasse a águas costeiras.

Em sua sentença, o o juiz Johnson disse que a empresa, que foi multada em 90 milhões de libras, havia descarregado entre 16 bilhões e 21 bilhões de litros de esgoto bruto em alguns dos mais “preciosos e delicados ecossistemas e litorais” com um desrespeito “pela saúde humana, e pela pesca e outros negócios legítimos que operam nas águas costeiras”.

Os cultivadores de ostras de Kent estavam entre os mais afetados depois que seus produtos deixaram de cumprir as normas de segurança. Não se sabe quantos banhistas sofreram com os altos níveis de contaminação fecal encontrados no mar ao redor da costa norte de Kent.

Os cultivadores de ostras em Kent estão entre os mais afetados pela descarga de esgoto bruto nas águas costeiras da Inglaterra. Foto: Steve Speller/Alamy

E a Southern Water não estava sozinha. A South West Water e a Thames Water estão entre as empresas regionais que têm sido regularmente encontradas liberando esgoto não tratado com o que não conseguem processar nos rios e no mar. Dados da Agência do Meio Ambiente para 2020 mostraram que os prestadores privados descarregaram esgoto bruto em rios e águas costeiras na Inglaterra mais de 400.000 vezes, um aumento de 37% em relação ao ano anterior.

Mas a indústria tem defendido seu recorde –recentemente, quando o ex-líder trabalhista Jeremy Corbyn ameaçou nacionalizá-la em 2017. O regulador do setor, Ofwat, alegou que 130 bilhões de libras em investimentos haviam sido feitos desde a privatização e que as contas eram 120 libras, ou 30% menores do que de outra forma teriam sido.

Enquanto isso, as empresas dizem, em caráter privado, que as mudanças climáticas são responsáveis pelas fortes chuvas que causam transbordamentos de esgoto, por isso não é algo que possam controlar ou que possam ser responsabilizados.

Críticos apontam que o governo de Margaret Thatcher absolveu as dívidas do setor antes da privatização e desde 1989 a indústria o endividou novamente com £ 48 bilhões a um custo anual de £ 1,3 bilhão.

Uma pesquisa de David Hall e Karol Yearwood da Universidade de Greenwich descobriu que a dívida não foi usada para consertar vazamentos dos tubos ou para executar obras de tratamento, mas foi direto para o bolso dos acionistas. Somando os dividendos dos acionistas pagos desde 1989, eles atingiram um total de £57 bilhões.

Nesse período, as contas de água dos clientes aumentaram 40% acima da taxa de inflação. São os usuários de água que pagaram as melhorias das redes que foram realizadas, enquanto os acionistas saem com dinheiro pago por meio de dívidas mais elevadas.

(Na Grã-Bretanha) Este é um problema estritamente inglês. No País de Gales, os serviços de água e esgoto são prestados por uma organização sem fins lucrativos desde 2001 e a Água Escocesa passoua a ser propriedade pública.

Os serviços de água e esgoto da Inglaterra abrigam o último dos monopólios privatizados. Você tem alternativas para comprar gasolina, eletricidade, telefone e banda larga. Não água.

Grupos ambientalistas argumentam que as mudanças climáticas exigem que as companhias de água se tornem parte de um esforço coordenado para proteger os mananciais de água e que isso não pode ser feito enquanto elas permanecem privadas.

Atualmente  estas companhias têm recursos para enganar os reguladores mal equipados da Ofwat e da Agência do Meio Ambiente. Os conselhos locais, que também desempenham um papel na proteção dos cursos d’água, também viram seus orçamentos cortados e experimentaram perdas de pessoal, deixando-os sem a influência para enfrentar os operadores do setor privado.

Paris e Barcelona estão entre as principais cidades do mundo que assumiram o controle direto do serviços de água e esgotos e que integram políticas que promovem seu melhor uso por famílias, empresas e proprietários de terras. Deve ser apenas uma questão de tempo até que a Inglaterra siga o exemplo.

Como funciona o sistema de esgoto da Inglaterra?

Quando o sistema de esgoto está funcionando normalmente, o esgoto proveniente de residências e empresas é tratado em uma estação de tratamento. Somente depois de tratada é que as águas residuárias são liberadas para o meio ambiente, seja no mar através de longos emissários ou descargas costeiras, ou em rios.

A grande maioria da rede de esgoto da Inglaterra é um sistema combinado, que remonta à engenharia vitoriana, e foi projetado para coletar o conteúdo dos banheiros das edificações e a água da chuva superficial e depois transferi-los juntos para estações de tratamento.

Após chuvas extremas, as estações de tratamento não conseguem lidar com o volume de água e esgoto não tratado. Excrementos humanos, preservativos, toalhas sanitárias e papel higiênico são lançados sem tratamento nos rios através de extravasores de esgoto combinada  – assim como era em Londres do século XIX.

Estes tubos devem operar como válvulas de segurança para liberar pressão no sistema e usados apenas quando uma quantidade excepcionalmente grande de água entra no sistema.

Publicado originalmente pelo The Guardian: https://www.theguardian.com/business/2021/jul/09/england-water-system-last-privatised-monopolies-for-now-analysis

 

 

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