ONDAS – Observatório dos Direitos à Água e ao Saneamento

Thiago Ávila sofre tentativa de criminalização por defender a natureza

 

O socioambientalista Thiago Ávila tem enfrentado uma tentativa de criminalização pelo trabalho que realiza. Segundo ele, essa “guerra judiciária” travada pelo governo do Distrito Federal está relacionada com a atual política antiecológica e de desmonte ambiental em vigor hoje no país. Porém, ele tem encontrado uma rede de solidariedade e, assim, segue com seu trabalho. O ONDAS, em apoio a Thiago Ávila*, publica esta entrevista exclusiva.

ONDAS: Fale um pouco da sua trajetória como ambientalista.
Thiago Ávila: Eu senti o chamado de me tornar socioambientalista após alguns anos como militante de esquerda, quando fui compreendendo o quanto o desastre ambiental planetário era uma emergência que, além de causar um impacto muito mais severo sobre a população mais pobre, também poderia nos levar a uma situação de barbárie ainda maior e extinção. Foi com essa necessidade, de deter a maior ameaça ao futuro do planeta e da humanidade, que me tornei socioambientalista. Ao longo dos anos fui percebendo também que não bastava trazer um panorama global se ele não viesse acompanhado de ações contundentes locais nas quais as pessoas pudessem se engajar, então passei a mobilizar junto com várias outras formiguinhas mutirões de regeneração a partir de sistemas agroflorestais, bioconstrução e outras ações nas cidades, no campo e nas florestas junto com povos indígenas e outros povos que resistem à destruição do suposto modelo de desenvolvimento capitalista. Construí junto com tantas pessoas, coletivos e movimentos ações de resistência contra o desmonte ambiental, a destruição dos biomas, as privatizações da água e saneamento e mobilizei para processos de articulação e luta em defesa da água, da terra e da Natureza. Os anos foram passando e hoje posso dizer que a maior parte da minha energia de vida é dedicada a ações concretas e cotidianas para regenerar o planeta.

ONDAS: E por que, apesar desta trajetória, hoje o governo do Distrito Federal te acusa por um suposto crime ambiental?
Thiago Ávila: É uma imensa contradição que logo eu, que dedico minha vida à defesa da Natureza e das pessoas, esteja sendo acusado de crime ambiental. O crime que me acusam diz respeito à ação covarde e violenta do governo durante a pandemia despejando famílias catadoras de materiais recicláveis na região próxima ao CCBB, cerca de um quilômetro de distância do palácio presidencial. Mesmo com uma lei distrital (6657/20) que proibia despejos durante a pandemia, o governador colocou essas famílias na rua pela primeira vez em junho de 2020. Nós denunciamos, fizemos ações de solidariedade e seguimos acompanhando as famílias. Nessa mesma época, foi construída por professoras voluntárias uma escolinha do cerrado, que buscava as tarefas das cerca de 18 crianças da comunidade na escola ou remotamente e auxiliava as crianças (que não tinham computador, celular, tablet, internet nem luz elétrica para se integrarem ao ensino remoto). Em março de 2021 o governo novamente mandou derrubar os barracos das famílias e a própria escolinha, então começamos um processo de resistência pacífica. Conseguimos uma liminar que protegia as famílias de novos despejos durante a pandemia, mas o governo já havia derrubado tudo novamente com uso de forte aparato policial. Em um desses despejos ilegais, me prenderam pela primeira vez alegando desacato, que não aconteceu e foi filmado ao vivo (link: https://www.instagram.com/p/CM2e9qjl_u0/). Então nós realizamos uma vaquinha online para reconstruir a comunidade e fizemos isso em um grande mutirão na páscoa de 2021. Dias depois, o governador conseguiu derrubar a liminar e mobilizou um aparato de guerra contra as famílias e as centenas de apoiadores da ocupação. Ele destruiu os barracos, os banheiros ecológicos e, após alguns dias de resistência, destruiu também a escolinha com pessoas ainda no teto dela. Nesse episódio eu fui preso pela segunda vez, jogado do alto do trator pelo batalhão de Choque (mesmo com tudo sendo acompanhado ao vivo por milhares de pessoas nas redes sociais: https://www.instagram.com/p/CNiwkmBnuBc/ ). Outras três pessoas foram presas comigo e no início do processo jurídico foram liberadas, mas a criminalização contra mim seguiu. Quanto maior era o desgaste do governador do Distrito Federal por estar despejando famílias pobres catadoras de materiais recicláveis no pico da pandemia, mais violência e mais instrumentos de criminalização ele utilizava. É uma tentativa escancarada de calar nossas vozes e deter nossa luta contra todas as violações que vem sendo cometidas e intensificadas durante a pandemia.

ONDAS: Você acredita que essas acusações estão relacionadas com a atual política predatória do governo federal, que acaba incentivando a devastação do meio ambiente e legitimando ações desse tipo?
Thiago Ávila: Sem dúvida essa tentativa de criminalização se relaciona diretamente com o desmonte ambiental e a política antiecológica promovida nacionalmente por Bolsonaro e seus aliados. O próprio governador do Distrito Federal é um declarado aliado do atual ocupante da cadeira presidencial. A criminalização contra mim lembra vários outros casos que acontecem em nosso país contra quem luta e não aceita a intimidação dos governos. Antes de tudo, o bolsonarismo defende uma agenda de ódio que aumenta a exploração do povo trabalhador, as opressões de todo tipo (gênero, raça, sexualidade, nacionalidade e outras) e a destruição da Natureza em patamares escandalosos. É parte de um projeto nacional ecocida a criminalização minha e de tantas pessoas que lutam por uma sociedade com outra relação entre as pessoas e a Natureza.

ONDAS: Em que situação estão os processos agora?
Thiago Ávila: A guerra judiciária empreendida pelo governo contra mim está sendo intensa. Apenas desse processo da resistência do CCBB e da escolinha do Cerrado foram quatro processos, sendo três criminais e um cível. Os três processos criminais estão em andamento, porém o que está mais avançado no momento é esse do crime ambiental, justamente o mais grave deles, que pode levar à prisão por até três anos se condenado. O processo cível pedia indenização para o subsecretário que cometeu uma prisão arbitrária contra mim alegando desacato e foi exposto nas redes sociais. Lamentavelmente, com a justiça burguesa sempre atuando ao lado dos que estão no andar de cima, esse processo foi finalizado com uma condenação contra mim e o pagamento de indenização ao subsecretário, apesar dos vídeos demonstrarem que não houve conduta ilícita e que ele quem estava cometendo violações há vários dias.

ONDAS: Você tem encontrado uma rede de apoio?
Thiago Ávila: Desde o início o apoio das pessoas foi muito grande e fez toda a diferença. A primeira prisão transmitida ao vivo gerou uma grande comoção e fez com que eu fosse liberado rapidamente. A segunda prisão, no meio da praça de guerra criada pelo governo, mobilizou também a solidariedade de pessoas em todo o país e vários lugares do mundo. Quando foi arbitrada fiança para a soltura minha e das outras três pessoas, foi criada uma vaquinha que arrecadou rapidamente o valor necessário e foi além (sendo o excedente usado para defesa jurídica das quatro pessoas). Após a condenação do processo cível, foi feita uma vaquinha também para arrecadar o valor da indenização que teve excedente e foi usado para ações de combate à fome. Além disso, nos processos criminais, o escritório do criminalista Kakay se mobilizou de forma gratuita para me defender de tamanha injustiça. Em todos esses momentos houve uma mobilização intensa em redes sociais por solidariedade, com notas de organizações, partidos, coletivos, parlamentares e etc. É possível dizer que, se não fosse a solidariedade coletiva nesse caso, o resultado teria sido ainda mais grave.

ONDAS: E, mesmo em meio a essa perseguição, você tem dado continuidade ao seu trabalho? Quais são seus projetos no momento?
Thiago Ávila: O mais importante é isso né: seguir o trabalho. Se nós pararmos, eles vencem. O projeto de destruição capitalista vence. E eu e tantas outras formiguinhas não paramos um dia sequer de construir caminhos de luta e resistência nas cidades, no campo e nas florestas para deter o desastre ambiental planetário e transformar essa sociedade. O canal Bem Vivendo (que é de onde vem minha renda a partir dos apoios) acabou parando porque não conseguia me concentrar para fazer os vídeos diante de tantas coisas, mas as ações práticas e concretas seguiram com força. No momento, minha dedicação maior está sendo para retomar as atividades do canal no Youtube, a produção de conteúdo no meu Instagram (https://instagram.com/thiagoavilabrasil ) e avançar na construção coletiva do Movimento Bem Viver (https://instagram.com/movbemviver ), que fundamos em outubro do ano passado para trazer mais potencial realizador às nossas ações de luta nas cidades, no campo e nas florestas. Não podemos parar, pois essa década é decisiva para deter o desastre ambiental planetário.

* THIAGO ÁVILA : Socioambientalista, comunicador popular no Youtube (canal Bem Vivendo) e Instagram (@thiagoavilabrasil) e membro da coordenação nacional do Movimento Bem Viver

2 comentários em “Thiago Ávila sofre tentativa de criminalização por defender a natureza”

  1. Gilberto Antonio do Nascimento

    Nosso apoio ao Thiago Avila, grande ativista por causas socioambientais. Muita força para continuar sendo agregador com sua ótima energia, fazendo sempre a diferença nas boas lutas por transformação social e ambiental por um mundo melhor.

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